(Re)animada com a vida
Get in loser, we're healing and falling back in love with life
Antes de ontem aconteceu um encontro online da formação que estou fazendo e tivemos uma dinâmica muito bacana, voltada a lidar com o desconforto do silêncio na vida e na clínica. Já fui, e devo ser ainda, do tipo que não sabe fingir costume com o silêncio, mas o tempo passa e a gente aprende a lidar com ele, apreciar os espaços que se abrem quando não se tenta preencher todo e qualquer buraco que se apresenta. Hoje, até sei fazer uma coisa que antes eu chamava de meditação e agora chamo de...bem, não chamo de nada, na verdade; que é acordar de manhã, ficar imóvel e só deixar o sonho se diluir na vigília, as preocupações começarem a brotar, deixar o dia criar raízes para acontecer.
Numa das dinâmicas, tínhamos que ficar três minutos em silêncio. Todo mundo ali, com câmera aberta, e silêncio. Lembrei do padre budista (ele se chama assim mesmo, de padre, ou Father, em inglês), Norman Fischer, explicando o porquê dos olhos semicerrados na meditação zen: para que não se acredite demais nem na ficção do mundo interno nem na do mundo externo. Assim, você se permite existir ali no meio, onde uma coisa não é tão sólida ou tão fantasiosa quanto parece ser. É um limbo que faz mais justiça à realidade do que a negação ou asserção ferrenha de algo.
Na outra dinâmica, tínhamos que ficar cinco minutos olhando para alguma pessoa que estava ali, no encontro, com a câmera aberta. Nessa, não sabíamos se estávamos sendo observados ou não. Assim que o exercício começou, ri de fato, com dentes e tudo, reagindo à ideia de que alguém poderia me observar sem que eu soubesse. O que sabíamos é que era uma possibilidade.
As preocupações logo brotaram: sou feia, desajeitada, o que podem descobrir a meu respeito me observando por cinco minutos? Em seguida, uma clareira: disso não morro, e desse raciocínio tem nascido um destemor que vejo como muito poderoso. O que acontece se eu deixo o outro construir uma versão de mim?
Pra mim? Nada.
Por que ter medo, então?
Os acontecimentos da vida foram me dando grandes liberdades.
Duas pessoas relataram me observar. Um deles, um colega querido, fez uma leitura gostosa: disse que percebeu que eu arrumei a minha postura, assumi um semblante analítico e assim fiquei pelos próximos cinco minutos, aparentemente prestando atenção à pessoa que elegi para olhar em silêncio. A outra pessoa, uma colega com quem nunca conversei e que parece gente fina (todos ali parecem!), relatou que eu parecia curiosa e encantada com o que eu estava observando.
Encantada. Curiosa. Apaixonada.
Eu estava. Estou. Oscilo um pouco, mas ando (re)animada com a vida, mesmo tudo ainda estando um pouco imprevisível.
Respondi às leituras dos dois, do primeiro dizendo que sim, eu estava bem concentrada na pessoa que estava analisando. E da segunda dizendo que sim também, eu realmente estava animada e curiosa com o exercício de olhar para outra pessoa e, no processo, enxergar o meu desconforto em propor uma intimidade tão radical de olhar fixamente para alguém que não sabia ser olhada. O meu desconforto e o desconforto dela, together. Achei graça de tudo, vi como a gente gosta de ter o controle da narrativa e como pode ser fácil soltar esse desejo e estar presente para o que se apresenta. É só pular.
Pular é a parte difícil.
Aliás, sobre estar presente, uma observação sobre uma leitura que estou fazendo, a do livro O sentido da vida, do Contardo Calligaris (2024). Muito se fala sobre “estar presente” como se fosse uma prática transcendental e transformadora (até é, principalmente na economia da atenção que vivemos hoje, só não sei se na medida “espiritual” que se vende), mas hoje entendo que tem mais a ver com não ficar fugindo de tudo o que brota no processo de viver – diga-se de emoções que nem sempre são simples – do que com estar presente, custe o que custar, produzindo assim uma espécie de prática forçada de prestar atenção no que brota com a intenção de “tirar algo dali”. Sabe? Numa perspectiva bem utilitarista e produtivista?
Ficar presente, na economia da espiritualidade (veja bem, não na espiritualidade, mas na “economia da espiritualidade”, se é que você me entende), tem mais a ver com gerar um subproduto daquela prática intencional do que de fato viver a vida e estar presente para o que se apresenta.
Enfim, me enrosquei nesse pensamento, mas achei hilário quando o Calligaris conta que, na época em que o Prozac começou a ser comercializado nos EUA (ele morava e atendia em NYC), uma paciente lhe disse que seu pai havia descoberto um câncer e teria apenas um ano de vida e se não seria interessante, ou até mesmo melhor, se ela tomasse Prozac durante esse ano para não sofrer com a doença e morte do pai. Hahahaha. A gente ri porque é um retrato muito fiel sobre como fantasiamos que a vida pode ser melhor: se, se, se. Se eu não tiver que sofrer com a morte de um ente querido, melhor. Se eu sempre tiver dinheiro para todos os boletos, caramba, que beleza. Se eu não sentir nenhum desamparo, então, yay, suprassumo da vida!
Estar presente é tão simples quanto olhar para a decrepitude desse pai e falar uau, olha tudo o que essa vida é capaz de oferecer, essa amplitude emocional que sou capaz de experimentar. Então o meu reencantamento tem muito a ver também com olhar para a vida, do alto dos meus bem-vividos 43 anos, e reconhecer a minha capacidade de amplitude. Uma máquina bem azeitada para viver tudo o que se apresenta. Mesmo que eu fique puta da cara, desmotivada, desmoralizada.
É raro, mas acontece com frequência.
Isso também quer dizer que eu sinto todas as outras coisas do outro lado do espectro.
Fácil? Não é. Mas sabe ser poético.
Fiquei feliz de ser vista como “encantada com o que eu estava vendo” no olhar de outra pessoa. Ressoou porque sei que sei viver assim. Eu só andava esquecida. Como eu disse na dinâmica, é bom estar assim porque estive por um bom tempo abraçada na pulsão de morte. O pêndulo vem, o pêndulo vai.
Seguimos.
Beijo pra quem leu até aqui!
M.





