O que se move
Sobre trabalhos internos e explorações de um passado que também foi meu
Algumas questões estão em movimento dentro de mim. As mudanças de vida, as escolhas que fiz nos últimos anos, as leituras, os estudos, as reviravoltas profissionais; quase tudo mudou. Coisas se reacenderam, coisas adormecidas. Ando buscando no passado explicações para o presente.
Assistindo a duas séries distintas, uma em italiano e a outra, em alemão, meu marido passa pela sala e me pergunta se me identifico mais com uma cultura ou com outra. Não sei responder, mas me boto a pensar.
Meus avós paternos eram “italianos da colônia”*. Meu pai foi o primeiro da família a sair do seio familiar para buscar os estudos. Quer dizer, não sei bem. Da parte da família que ficou na Itália, na região do Vêneto, aparentemente alguns Savi seguiram o clero, e portanto estudaram, e outros que tocavam os negócios dos antigos Savi, os Molineri, que tinham um moinho.
Mas a família italiana estava longe dos estereótipos da alegria e gritaria que se associam à cultura do país. Sim, havia alegria. E sim, havia gritaria, mas não era cinematográfica. Aliás, era, mas era um pouco trágica, como em Amarcord, de Fellini. A gritaria vinha dos mais de 25 netos que brincavam dentro da casa ou no pátio da casa onde meus avós moravam e meu avô tocava uma marcenaria. A alegria era silenciosa, nada efusiva.
Meus avós tiveram onze filhos, e meu pai era o mais velho. Coube a ele ir abrindo os caminhos para fora da cidade pequena onde viviam. Fez ensino técnico, depois engenharia, depois virou professor.
A casa dos meus avós de origem italiana era veramente italiana na comida, nos xingamentos que aconteciam numa língua que eu não falava, mas entendia; e nos abraços grandes, largos e carinhosos dos avós, tios e tias. Não era uma casa exatamente “feliz” (muitas aspas aqui). Era silenciosa quando os primos não estavam lá. Séria.
Minha nonna faleceu quando eu tinha dez anos e as poucas lembranças que tenho dela são de gestos cuidadosos: umas moedas para comprar um chocolate no bar do vizinho (o Bar do Cal), mas não conta isso pro nonno; uns pedaços de pano para costurar roupas para as Barbies e muitos potes de bolachas caseiras liberadas para o consumo ilimitado.
Meu nonno, embora tivesse um jeito um pouco bruto (e entendo que ele tenha sido assim antes de eu o conhecer), era um doce com os netos. Ah, a idade! Ele dava o que chamava de carreirinho de beijos, estava sempre lendo e estudando e tinha uma expressão sábia e dramática.
A parte animada da família era justamente a de origem alemã. Quem diria. Mas não era só alemã, o tempero português fez diferença ali. A família de minha avó materna era tipicamente alemã - todo mundo meio recalcado e sério. Meu avô materno, por outro lado, era um Pereira bem-humorado e cheio de vida, mas estava solitário na família alemã, que era numerosa. Ele veio desgarrado: sem mãe nem pai e sem irmãos também (ele os tinha, mas não os conheci).
Pena que ele faleceu quando eu era criança. Foi ele, sem dúvida alguma, quem ensinou a minha mãe a ser feliz. E todo mundo em volta. Até minha avó, uma Ternes bem Ternes, se contagiou pelo carisma dele e, juntos, eles tiveram três filhas que sempre foram a minha referência do que significa ter desejo pela vida.
Tinha algo na generosidade do meu avô que eu nunca mais vi bem daquele jeito em ninguém. Ele tinha uma paciência incomum com qualquer coisa que viesse do outro (ou assim me parecia): uma história, uma conversa qualquer ou um pedido de ajuda. Sempre que ele ia me buscar na escola, levava uma besteira: pirulito, algodão-doce ou um milho cozido de uma banquinha de rua. Ele me contava histórias elaboradas e me tratava como uma pessoa “de verdade”, embora eu fosse “só” uma criança. Hoje olho para a minha filha de oito anos e penso, nossa, eu tinha essa idade quando ele morreu, como ele pôde deixar uma marca tão significativa?
Uma vez, alugamos uma casa em Perequê, em Santa Catarina, como era o costume da família nos verões. Ficávamos lá ou em Porto Belo, não importava. O objetivo era ficar com os pés na areia o máximo de tempo possível, aproveitar o mar, comer mariscos e brincar com os primos. Dentro da área da casa, entre o muro que separava a casa da praia, eu e meu avô encontramos um buraco de caranguejo. Ficamos de olho e descobrimos que havia não um, mas dois caranguejos morando ali. Logo ele já inventou uma história. Era um casal e eles tinham uma vida inteira embaixo da areia. Queriam filhos, tinham planos para o futuro. Eram seres desejantes. Um dia o buraco apareceu fechado e surgiu, então, outra história: eles decidiram se mudar, queriam explorar o mundo, como você um dia vai querer, Melina. E ainda quero. Nada de ah, morreram ou sumiram. Não. Desejos, planos, vida rica de sonhos até para os caranguejos.
É assim que me lembro dele, é isso que carrego desse avô querido que até no circo trabalhou. Que até na Segunda Guerra lutou. Que escreveu livros e fez incontáveis amigos. Que foi carinhoso, generoso e apaixonado pela vida.
O que tem se movimentado dentro de mim é a percepção de que sou fruto disso tudo: do avô que morava na colônia, plantava batatas, tinha uma marcenaria e criou onze filhos. Da avó que tinha mãos fortes e fazia a melhor macarronada que já comi em toda a minha vida. Do avô que não tinha preguiça de criança nem de ninguém, que queria mais é ser alegria para quem cruzasse seu caminho. E da avó que não falava mal de ninguém, era um doce em pessoa e parecia a rainha da Inglaterra.
O que me parece é que, como nenhuma história pode ser confirmada pelos que já não estão aqui, posso criar as que me convêm. E esclarecer as eventuais dúvidas apenas a partir de mim mesma, do que ficou dentro de mim e hoje se move.
Encarar os furos, as falhas, os buracos, tudo o que fez de mim quem sou hoje. É o que faço agora, construo sentidos.
Un abbraccio forte,
Melina Savi
*Sou brasileira e não italiana nem mesmo alemã. Mas é inegável que os laços que eles tinham com essas culturas se transferiram, de um modo ou de outro, para mim. Não, não me considero nem uma coisa nem outra - entendo que a identificação é uma construção cultural, uma história que eu me conto para entender a minha própria história familiar.






